Dr. Yglésio
Médico, professor universitário
Deputado Estadual

Como médico, nunca em minha história profissional havia me deparado com algo tão transformador de vidas e realidades como a covid-19. O certo é que há uma legião de pacientes que estão com seus tratamentos médicos atrasados. Cirurgias eletivas e cirurgias oncológicas sem data para acontecer enquanto apertam as dores, sem esquecer dos pacientes em filas de exames pré-operatórios e consultas que deles precisam pra direcionar seus tratamentos.

Recentemente, recebi uma imagem de um colega oftalmologista. Nela, um olho de um paciente que perdeu a visão por conta de uma úlcera na córnea causada por inseto, que poderia ter sido tratada, caso o paciente não tivesse medo de ir ao consultório, amedrontado pela simples possibilidade de contrair a doença do novo coronavírus.

Casos como o do paciente acima multiplicam-se por aí. Como cirurgião da área de oncologia, fico a pensar quantos enfermos potencialmente curáveis estão deixando de ter a chance de um tratamento que lhes permita livrarem-se dessa doença cruel, por conta da paralisia induzida pelo enfrentamento ao novo vírus. De toda forma, não custa fazer algumas ponderações: uma doença que tem mortalidade baixa e letalidade intermediária como a covid-19 é, por si só, um impeditivo pra quem precisa de um tratamento clínico-cirúrgico com celeridade? Em um primeiro momento diríamos que sim. Estudos chineses em Wuhan mostraram taxas de mortalidade tão altas quanto 20% em pacientes que contraíram coronavírus. Poder-se-ia dizer que se trata de justo motivo para abolir qualquer terapia não emergencial até cessar a pandemia…porém, há um caminho que podemos começar a vislumbrar em São Luís.

Estamos nos aproximando do pico da pandemia, que não tenho dúvidas de que virá na primeira quinzena de junho. A solução para encaminhar o diagnóstico e tratamento de todos esses pacientes cirúrgicos e ambulatoriais é iniciar uma triagem de todos os profissionais de saúde, de hospitais públicos e privados, que tiveram a infecção pelo novo coronavírus e começar a estruturar a oferta de serviços por meio desses profissionais imunizados. Não faz qualquer sentido um profissional imunizado não retornar ao trabalho. Unir esses vários profissionais curados, inclusive de diferentes unidades assistenciais de maneira temporária com vistas a dar continuidades às atividades eletivas, ajudaria a dar alguma movimentação às longas filas e ao interminável sofrimento das pessoas. A vida e a assistência médica nesses tempos de ‘nova normalidade’ demandarão soluções criativas e capacidade de improvisar.

À medida que os hospitais tiverem a pressão por leitos de coronavírus reduzida, precisaremos remanejar os pacientes de maneira a esvaziar as unidades menores que estavam cedidas para esse enfrentamento epidêmico, ocupando-as em seguida com profissionais já curados. Além disso, é fundamental que os gestores da saúde avancem em investimentos em testes para verificar na véspera da cirurgia se os pacientes são portadores da nova virose e que, em caso negativo ou já imunizados, possam se submeter as suas cirurgias normalmente. Com isso, criaremos um ambiente teoricamente tido como ‘covid-free’, apesar de sabermos das dificuldades dessa logística, mas a pandemia veio com uma força destruidora dos nossos padrões organizacionais, mas paradoxalmente tem feito cada agente do sistema de saúde reinventar-se e essa deverá ser a principal lição da pandemia para quem coordena a rede de assistência.

A capacidade de fazer mais com menos, a capacidade de criar fluxos onde só havia estática e gestão antiquada são os maiores legados que teremos em meio a tanto sofrimento e perdas. Que estejamos preparados para a necessária reconstrução do SUS no pós-pandemia, já que não podemos duvidar: novos coronavírus ou seus similares com suas novas pandemias ainda virão. Espero que estejamos aprendendo desta vez as necessárias lições pra fazermos mais, melhor e mais rápido!